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João César das Neves, uma referência nacional (quando fala de economia)

Escreve hoje no Diário de Notícias:

A actual crise financeira tem multiplicado as reflexões de fundo sobre o sistema capitalista. Na maioria elas seguem uma teoria conspirativa, variante da luta de classes: existe uma elite que não só costuma explorar a massa do povo mas ainda gera estas terríveis convulsões com as suas imprudências. Tais ideias têm muito de verdade. São evidentes as fraudes, erros, crimes. Mas o mais dramático e curioso é que a crise não precisava disso para surgir. Ela pode acontecer mesmo sem qualquer falha, porque provém da natureza íntima do capitalismo.

A essência do nosso sistema económico é a liberdade de iniciativa. Cada um pode apresentar no mercado os produtos que quiser e, se forem preferidos pelos clientes, terá sucesso e prosperidade. Foi este sistema que gerou o incrível desenvolvimento da humanidade nos últimos dois séculos. Mas é também este mecanismo de experiência e tentativa, risco e atrevimento, que cria a instabilidade latente e recorrente na nossa vida. O tumulto não é acidente fortuito, mas elemento nuclear. Pode dizer-se que o capitalismo só floresce à beira do abismo.

[...] Nas finanças lida-se directamente com moeda, que é uma responsabilidade directa do Estado. Por isso é que os bancos actuam sempre sob estrita vigilância regulamentar. A legislação é minuciosa, as suas contas são inspeccionadas habitualmente e até os administradores bancários têm de ser aprovados pelas autoridades, o que seria inaceitável numa empresa comum. Todas as instituições financeiras funcionam numa espécie de concessão pública. O Estado mantém-se o garante último do sistema monetário e tem poder absoluto sobre ele.

Por isso as recentes intervenções governamentais não são socialismo, keynesianismo, ou sequer intervencionismo. São do mais estrito e autêntico monetarismo. Foi Milton Friedman, supremo neoliberal, quem recomendou estas políticas para tratar crises deste tipo.

Todos gostamos dos avanços e melhorias, mas ninguém aprecia a concorrência e confronto, tentativas falhadas e ensaios perdidos, toda a luta pela novidade, que, afinal, é a origem do progresso. Este é o drama do nosso tempo. Joseph Schumpeter, um dos homem que melhor o compreenderam, chamou-lhe “destruição criativa”, uma expressão convenientemente ambígua e hoje assustadoramente visível.



A crise em Portugal

No Diário de Notícias:

A banca nacional - tal como o sistema financeiro internacional, a seguir ao subprime - necessita de dinheiro para emprestar às famílias e empresas. E o dinheiro até existe, com o BCE a inundar o mercado com milhares de milhões de euros e os bancos a devolverem até ao último cêntimo, respeitando prazos acordados. Só que, ao nível dos três mil bancos europeus (uma espécie de segunda linha nos empréstimos), ninguém quer ceder dinheiro. Isto porque desconfiam da “qualidade” dos activos - leia-se acções, obrigações, títulos diversos - que sirvam de garantia aos empréstimos interbancários. Toda a gente desconfia que o vizinho pode fechar as portas.

É aqui que entra as garantias do Estado português. Os 20 mil milhões de euros em garantias - 11,7% do PIB, cinco vezes o tamanho do défice orçamental projectado para 2009 - são a chave para o acesso ao cofre do dinheiro no mercado interbancário.

Cifrões que não assustam os banqueiros. É que, contas feitas, em Junho deste ano, os empréstimos da banca portuguesa junto dos banqueiros estrangeiros foi estimado, pelo Banco de Portugal, em 92 mil milhões de euros, 54,1% do PIB. Este endividamento é explicado pela forte apetência dos portugueses pelos empréstimos (habitação, consumo, investimentos) e, por outro lado, pela falta de poupanças (depósitos).

Nos primeiros seis meses, os empréstimos acumulados já atingiam os 263,1 mil milhões de euros. Para enfrentar estes créditos existiam em depósitos na banca nacional apenas 150 mil milhões de euros, 57% das necessidades para empréstimos. Existem rácios legais a cumprir, mas foi para cobrir este diferencial - entre empréstimos e depósitos - que os banqueiros tiveram de recorrer à banca estrangeira, contratando os tais 92 mil milhões de euros.



Cuba em Angola

Yoani Sánchez, no Generación Y:

Hoy estamos informados de cada baja que sufre el ejército norteamericano en Irak, pero recuerdo el secretismo sobre el número de soldados cubanos caídos durante la guerra angolana. Nos enterábamos que el vecino había perdido un hermano o que el colega de trabajo regresaba sin una pierna, pero la prensa sólo tocaba la sinfonía de la victoria. Los muertos se lloraron en la privacidad de las familias que no entendían muy bien qué hacían sus hijos al otro lado del Atlántico. Quedaron los nichos en el cementerio, las fotos enmarcadas en las salas familiares, los vasos de flores repletos en cada aniversario y los largos discursos de quienes habían visto la guerra desde lejos, pero nadie supo responder con  claridad a la pregunta: ¿Qué hacíamos los cubanos en Angola?



Extremos

Pacheco Pereira, na Sábado:

As ideias de Mário Machado matam, tenho poucas dúvidas sobre isso, Mas também as minhas há trinta anos matavam, as de Mário Soares, na sua juventude, matavam, as de vários membros do governo actual e de altos responsáveis da magistratura, de empresas, da comunicação social, matavam também. E as de muita gente hoje, que em Portugal passa por ser pacífica e que ninguém vê com os mesmos olhos com que vê os skins e os nazis, matam hoje mesmo, na Colômbia, na América Latina em geral, em África, na Ásia e mesmo na Europa, no país nosso vizinho, Ou pensam que a apologia da violência é um exclusivo da extrema direita e que a extrema-esquerda são uns pacíficos meninos, cujas bandeiras com a foice e o martelo não têm tanto sangue como a cruz gamada?



Francis Fukuyama, outra referência

Na Newsweek:

Ideas are one of our most important exports, and two fundamentally American ideas have dominated global thinking since the early 1980s, when Ronald Reagan was elected president. The first was a certain vision of capitalism—one that argued low taxes, light regulation and a pared-back government would be the engine for economic growth. Reaganism reversed a century-long trend toward ever-larger government. Deregulation became the order of the day not just in the United States but around the world.

The second big idea was America as a promoter of liberal democracy around the world, which was seen as the best path to a more prosperous and open international order. America’s power and influence rested not just on our tanks and dollars, but on the fact that most people found the American form of self-government attractive and wanted to reshape their societies along the same lines—what political scientist Joseph Nye has labeled our “soft power.”

It’s hard to fathom just how badly these signature features of the American brand have been discredited. Between 2002 and 2007, while the world was enjoying an unprecedented period of growth, it was easy to ignore those European socialists and Latin American populists who denounced the U.S. economic model as “cowboy capitalism.” But now the engine of that growth, the American economy, has gone off the rails and threatens to drag the rest of the world down with it. Worse, the culprit is the American model itself: under the mantra of less government, Washington failed to adequately regulate the financial sector and allowed it to do tremendous harm to the rest of the society.

[...] The problem is that Wall Street is very different from, say, Silicon Valley, where a light regulatory hand is genuinely beneficial. Financial institutions are based on trust, which can only flourish if governments ensure they are transparent and constrained in the risks they can take with other people’s money. The sector is also different because the collapse of a financial institution harms not just its shareholders and employees, but a host of innocent bystanders as well (what economists soberly call “negative externalities”).

[...] All this suggests that the Reagan era should have ended some time ago. It didn’t partly because the Democratic Party failed to come up with convincing candidates and arguments, but also because of a particular aspect of America that makes our country very different from Europe. There, less-educated, working-class citizens vote reliably for socialist, communist and other left-learning parties, based on their economic interests. In the United States, they can swing either left or right. They were part of Roosevelt’s grand Democratic coalition during the New Deal, a coalition that held through Lyndon Johnson’s Great Society in the 1960s. But they started voting Republican during the Nixon and Reagan years, swung to Clinton in the 1990s, and returned to the Republican fold under George W. Bush. When they vote Republican, it’s because cultural issues like religion, patriotism, family values and gun ownership trump economic ones.

This group of voters will decide November’s election, not least because of their concentration in a handful of swing states like Ohio and Pennsylvania. Will they tilt toward the more distant, Harvard-educated Obama, who more accurately reflects their economic interests? Or will they stick with people they can better identify with, like McCain and Sarah Palin? It took an economic crisis of massive proportions from 1929 to 1931 to bring a Democratic administration to power. Polls indicate we may have arrived again at that point in October 2008.

[...] The unedifying response to the Wall Street crisis shows that the biggest change we need to make is in our politics. The Reagan revolution broke the 50-year dominance of liberals and Democrats in American politics and opened up room for different approaches to the problems of the time. But as the years have passed, what were once fresh ideas have hardened into hoary dogmas. The quality of political debate has been coarsened by partisans who question not just the ideas but the motives of their opponents. All this makes it harder to adjust to the new and difficult reality we face. So the ultimate test for the American model will be its capacity to reinvent itself once again. Good branding is not, to quote a presidential candidate, a matter of putting lipstick on a pig. It’s about having the right product to sell in the first place. American democracy has its work cut out for it.



Morreu um grande senhor

Sobre Jörg Haider, escreve Joaquim Couto no Portugal Contemporâneo:

Num país socialista Jörg Heider não teria falecido. Seria inconcebível que o governador de uma província se deslocasse sozinho, de noite, ao volante da sua própria viatura. Num país socialista, um governador teria direito a carro do Estado e respectivo condutor. Se fosse de noite, o condutor teria acabado de iniciar o seu turno e estaria fresco como uma alface. Ainda, o governador teria batedores, da polícia ou do exército, para abrir caminho e evitar embates indesejados. Se o país fosse verdadeiramente socialista, o querido líder teria mandado parar o trânsito e circularia sozinho, numa viatura à prova de bala e de topo da gama, com as insígnias governatoriais claramente destacadas. Perante esta inquestionável verdade, ainda há quem não queira ver as vantagens do socialismo. As vantagens do socialismo para os governadores, claro está, não para os governados.



Os revolucionários são imortais

Fidel escreveu mandou escrever ontem no site CubaDebate que John McCain é velho demais para governar os Estados Unidos. Ora, tendo em conta que McCain tem 72 anos, que Fidel vai nos 82 e que este só abandonou o leme cubano no ano passado, talvez El Comandante não esteja afinal tão lúcido quanto quer fazer crer. Ou então os revolucionários só envelhecem nos anos bissextos.



A política em Portugal é tão gay

A disciplina de voto acentua discrepâncias entre partidos, entre esquerda e direita. Intensifica o corporativismo, esmaga o pluralismo, desfavorece o debate de ideias dentro dos partidos. Paralisa as linhas políticas dos partidos, fortalece as ideologias e repele da actividade política quem não se reveja integralmente nas lideranças partidárias do momento. A disciplina de voto induz a homogeneidade cultural, esmaga os desvios e afasta os partidos de quem deveriam representar. Os deputados portugueses têm dois patrões: o povo e os respectivos líderes partidários. Mas não é ao povo que têm de agradecer e agradar por estarem e para se manterem na posição em que estão.



No recanto gay do Paraíso

Há uma coisa que não entendo: a Igreja considera a família e o casamento bases sólidas da existência terrena, para além da necessária reza dos dias. Ao mesmo tempo, os intermediários da Santíssima Trindade na Terra dizem-nos que os homossexuais não devem casar porque não procriam, o que necessariamente os incapacita para constituir uma família - no sentido que é dado ao termo pela instituição católica. Desta feita, parece-me que a senda gay pela ida para o Paraíso é bem mais difícil de frutificar do que a heterossexual, que é mais fácil porque neste grupo estão os que não se deixaram inverter e seguiram no caminho… recto. No entanto, o bispo D. Januário Torgal Ferreira diz (no Público impresso de hoje, sem link) que não tem qualquer objecção à entrada de gays na Igreja. O que significa que não coloca entraves a que eles se tornem representantes de Deus na Terra, logo seres que alcançam o Paraíso por troca da repetição de meia dúzia de tretas em missas ao longo de umas décadas.



É desta que MFL reage?

Pode o Magalhães ser muito divertido para as crianças e uma dor de cabeça para os professores ignorantes em informática, mas o que interessa é capitalizar a iniciativa em votos para o PS. Como diria César das Neves, deveria ser prioritário ensinar aos professores como ligar, desligar e fazer outras coisas giras num computador antes de dar aos miúdos a possibilidade de dar marretadas no teclado e jogar nas aulas. Mas afinal nem tudo são rosas no Magalhães, pelo menos do lado socialista. Parece que a JP Sá Couto, que produz o proto-circum-navegador, deve - juntamente com o seu administrador e outros 39 indivíduos igualmente admiráveis - cerca de 5 milhões de euros ao Fisco. Dada a enorme transparência da contratação desta empresa para fornecer ao Estado português milhares de computadores (e ao venezuelano um milhão), e tendo em conta a facilidade com que o Governo tem acesso àquilo que a Rádio Renascença noticia, o que parece poder ser concluído é que a JP Sá Couto tem um assinalável poder político, quiçá no município de Vila do Conde, o que não seria novo no ‘mundo’ empresarial português.



Mário Soares

Ainda bem que não é este senhor o actual Presidente da República.



Pragmatismo

João Villalobos, no Corta-Fitas:

Cavaco veio hoje dizer nas entrelinhas algo que Marcelo (como sempre brilhante intérprete de sinais), reforçaria com maior clareza horas depois no seu programa da RTP: O liberalismo, como bandeira política para as próximas eleições, tem os dias contados. Feneceu. R.I.P. A situação gerada pela crise financeira tornou insustentável no espaço entre o agora e as legislativas a defesa política de um papel desintervencionista do Estado (Para dar um exemplo, não só seria hoje sinal de demência vir defender a privatização da Caixa Geral de Depósitos como, pelo contrário, o banco público é por razões associadas à confiança o único a poder sair reforçado de toda esta turbulência).



Déjà vu?

Milton & Rose Friedman, no clássico Liberdade para Escolher:

A [Grande] Depressão [de 1929] foi provocada por um fracasso do Governo numa área - dinheiro - onde sempre, desde o início da República, exercera a sua actividade. Contudo, a responsabilidade do Governo na depressão não foi reconhecida - nem então, nem agora. Em vez disso, a depressão foi largamente interpretada como um falhanço do mercado livre capitalista. Esse mito levou o público a juntar-se aos intelectuais numa mudança de perspectiva em relação às responsabilidades relativas dos indivíduos e do Governo. A ênfase na responsabilidade do indivíduo pelo seu próprio destino foi substituída pela ênfase do indivíduo enquanto peão empurrado por forças que não consegue controlar. O ponto de vista de que o papel do Governo é funcionar como árbitro para impedir os indivíduos de exercerem coacção uns sobre os outros foi substituído pelo ponto de vista de que o papel do Governo é funcionar como um tutor encarregado de obrigar alguns a ajudar os outros.



Recomendar uma recomendação

Isto já foi referido no blogue Jornalismo & Comunicação, mas vale a pena repisar: a SAGE tem o seu arquivo de papers aberto a inscrições gratuitas até ao final de Outubro, o que significa, no meu caso, que tenho ainda mais três semanas para descarregar toneladas de PDFs sobre política portuguesa. Esse filtro tem 6993 resultados e ainda só cheguei aos primeiros 200 títulos. Vale a pena.



Fareed Zakaria, uma referência

Sobre a crise actual, na Newsweek:

No modern society could accept the downswings that used to be routine for Western countries in the 19th century, an era that saw much less intervention. The average length of a recession between 1854 and 1919 was 22 months. In the last two decades recessions have averaged eight months. Between 1854 and 1919, the American economy contracted every 49 months on average. In the last two decades, it has been 100 months between contractions. Many factors have contributed to these changes but chief among them have been the government’s monetary and fiscal policies.

Does this round of intervention mark a return to regulation? Well, 40 years ago governments in most countries controlled their national currency, which was not freely floating. They often owned steel companies, car manufacturers, telephone companies, and banks. They set the price of airline tickets, phone calls, stock commissions, and cement. Tariffs were many times higher than they are today in the industrialized world. Does anyone think we’re returning to this world?

We can’t. Capitalism is now a global phenomenon, powered by the actions of companies and governments all over the world. Countries will continue to rely on free markets and free trade to get growth and rising standards of living. Over the last three decades countries have liberalized their markets not because people like Bob Rubin or Hank Paulson forced them to do so, but because they could see the benefits of moving in that direction (and the costs of not doing so). This movement will continue to be halting and episodic, and vulnerable to political pressures. But I would bet that over the next 20 years, more countries will open up parts of their economies (in a controlled fashion) than nationalize parts of them.

The real fallout of the financial crisis will be the delegitimization of American power. People around the world once saw the United States as the most modern, sophisticated and productive economy in the world. Now they wonder, was this all a house of cards? They listened to American policymakers with respect, even awe. Today, they wonder if these officials know what they are doing. This loss of credibility will have hard consequences. [...] For decades, the United States has attracted massive amounts of capital—80 percent of the surplus savings of the world—which has allowed it to live beyond its means. That era is drawing to a close. America will have to fight to attract capital and investment like every other nation.

In a world of competitive capitalism, you need not big government or no government but smart government. We are not in a race to the bottom, on wages, regulations, or anything else. But we are competing against other countries to come up with the government policies that most effectively foster growth, innovation, and productivity. It’s a time to figure out what works, not what ideological mantras to keep repeating. It’s the age of Michael Bloomberg, not Margaret Thatcher.



A destreza das dúvidas

Com o alastrar desta crise financeira à economia global e tendo em conta o muito que se vai dizendo por aí, na imprensa e na blogosfera nacionais e internacionais, é tempo de deixar de parte a demagogia anti-economia de mercado daqueles que, não percebendo o fulcro do que está em causa, agitam o espectro do socialismo como síntese histórica e melhor solução para o problema. É claro que essa é uma solução, mas o capitalismo deixou visível a sua obra.

Urge então conhecer o que está em causa, tomar decisões com base nisso e regenerar o melhor sistema económico até hoje concebido. Nesta fase, para lá das inúmeras dúvidas sobre activos financeiros específicos, há duas questões que me coloco e cuja análise ainda não vi extensivamente registada: esta crise deve-se a parca regulação ou a excessiva regulação? E, dependendo disso, a economia de mercado do futuro deverá ser mais vigiada ou livre, como os grandes pensadores preconizaram?



Apenas 4420 euros + IVA

O Carlos Nunes Lopes do 31 da Armada, fazendo serviço público - do tal que jamais chegaria à RTP -, linka os documentos e divulga fotografias dos textos propagandísticos do Ministério da Educação, que gastou um total de 4420 euros do Estado (acrescidos de IVA) em seis partes, sempre no Jornal de Notícias: 728 aqui, outros 728 ali e outro tanto acolá, antes de ter largado um pouco mais (780), voltando depois ao valor inicial por duas vezes.



Sacudir o sangue do capote

Bento XVI, no Público impresso de hoje (sem link):

“Quando os homens se proclamam proprietários absolutos de si mesmos e únicos mestres da criação (…) crescem a arbitrariedade do poder, os interesses egoístas, a injustiça e a exploração e a violência em todas as suas expressões”.

Concordo. A história da pré-modernidade europeia - em que a Santa Madre Igreja governou grande parte do continente - mostra-nos que então o poder era tudo menos autoritário, que os dirigentes eram altruístas, que havia equidade na distribuição de riqueza, o povo não era explorado e a violência era muito mais esporádica* do que agora.

(* Uma tabela de Steven Levitt no livro Freakonomics contém números redondos mas fiáveis sobre a criminalidade nos principais países europeus desde o século XV, creio. Não tenho o livro comigo.)



“Eu também sempre pedi à oposição que não mentisse”

José Sócrates diz que as palavras de Cavaco Silva ontem estão em consonância com o que ele - Sócrates - tem vindo a defender, “nomeadamente no apelo para que o país se mobilize e ‘não baixe os braços’”, reporta o Diário Económico. E continua: “O primeiro-ministro garantiu ter gostado ‘muito do discurso do senhor Presidente da República, em particular do apelo que fez à mobilização dos portugueses para terem energia e ambição no sentido de que sejam enfrentadas as dificuldades, não apenas portuguesas, mas de todos os países europeus e dos Estados Unidos’. E concluiu: ‘É um apelo de combate à descrença e ao pessimismo, como aliás tenho sempre dito’. O primeiro-ministro sublinhou ainda a ‘importância do apelo à confiança dos portugueses’ por parte do Presidente da República”. Sócrates parece ter esquecido um outro pequeno aspecto do discurso de Cavaco: aquele em que o PR apelou a que os políticos deixem de iludir os portugueses. O que, a avaliar por esta reacção de Sócrates - com a qual voltou a iludir o povo -, não parece ter reverberado nos tímpanos do primeiro-ministro.



“Músculos”

Crónica de João Paulo Guerra, no Diário Económico de hoje:

Não há nenhuma originalidade no discurso: qualquer extremista francês, italiano, polaco ou austríaco diz o mesmo. A originalidade não está no conteúdo mas, a havê-la, na forma. Diz Paulo Portas que é necessária uma “ruptura democrática” com os “brandos costumes”. O que Paulo Portas quer sabemos nós.

Os lugares-comuns, hoje comummente apelidados de ‘sound-bytes’, de tanto se usarem e repisarem perdem as referências originais e fundadoras. “Brandos costumes” era uma expressão salazarenta com a qual o ditador se queria referir ao povinho que comia, pouco e mal, e calava. “País de costumes brandos e de hábitos morigerados”, sentenciava a criatura assim designando os que exemplarmente morigeravam e, de tão brandos, nem refilavam. A ruptura com os “brandos costumes” foi feita e há certamente quem não tenha gostado da modalidade. Portanto, ao requerer uma “ruptura democrática” com os “brandos costumes”, o que Paulo Portas quer é musculatura, dureza e, na primeira oportunidade, acelerar o discurso e mandar os imigrantes para “a terra deles”. Prosápias que – pensará o líder do PP – cairão bem no nicho de eleitorado da extrema-direita e entre os alienados da política.

Paulo Portas tem hoje em dia um peso político relativamente insignificante. Mas não deixa de ser inquietante a insistência com que se está a tornar moda em Portugal recorrer a conceitos e expressões que pisam o risco da xenofobia. Para além de tudo o mais, se a xenofobia pega por esse mundo fora, lá teremos uns milhões de portugueses, que como os imigrantes em Portugal ganham penosa e honestamente a vida longe da Pátria, recambiados para “a terra deles”.


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